Picasso, também tu?

Estou cansado. Tenho medo do que decida fazer numa destas manhãs. Quantos planos não fiz já para desaparecer, farto que estou de me amarrar ao triste cais que se tem tornado a minha vida. E assim continuo, sem reacção para me mexer. À primeira vista, não me posso queixar. Sempre tive tudo o que quis, mas também nunca quis muito. Fui ensinado a querer o que me chegava, aquilo que podia ter. Talvez tenha de agradecer isso a alguém. Estou quase a acabar o curso, mas bem que podia ser o primeiro ano. Estou tão longe de o terminar como há 4 anos atrás, quando cheguei à escola preparado para mudar a minha vida. Hoje ia na autoestrada e vi uma placa que dizia “Espanha”. Se não fui, culpo a minha mãe, quem amo mais do que a minha própria vida. É o meu único e verdadeiro rumo, o farol a quem tantas vezes recorro para voltar a casa. Não consigo deixá-la a sofrer desta forma. Mas não ter virado importa tanto como todas as vezes que fiz as malas, para as desfazer no dia a seguir. Se não chega a acontecer, não faz parte de mim. Será? Estou farto de não fazer sentido. Queria recomeçar a minha vida noutro lado, longe do melhor e do pior. É porque é disso que a minha vida é feita. De dias incríveis, que são a pausa da merda que são os outros dias todos. Estou farto de extremos, já não aguento este ritmo. Quero o meio, onde por sinal está a puta da virtude que tanto ouço façar. Onde está? Quero a metade do melhor, ter a porra do copo a meio. Depois logo vejo se o encho, ou se o bebo de vez. Não me serve de nada estar bem disposto. Já parece o desenho irónico do tal balão que sobe em direcção do arame farpado. Nem tenho paciência para postar o link. Desenrasquem-se. Para quê me serve ter um dia espectacular na praia, se no fim penso em todos aqueles dias solarentos que poderia ter tido com ela, mas não tive? Para quê me serve dançar durante seis horas seguidas com uma porrada de mulheres diferentes, se só queria dançar com uma? Para quê me serve ter a lata que tenho para meter conversas com estranhos completos, se ninguém me responde como ela? Para quê sentir que sou olhado, se não são os olhos dela que me vêem? Para quê me sentir desejado, se não é a pele dela que me deseja? Acontece-me de tudo, nos últimos tempos. Primeiro levo umas pseudo-barras engraçadas, parece que me ando a testar a mim mesmo. Chumbei foi no teste, porque não me afectaram minimamente. E não, nesse caso não sou mesmo a raposa de La Fontaine. Serei noutros, mas não nestes. Queria sentir-me magoado com outras, qual criança que se quer deixar picar por uma vespa para ver se dói. Qual quê... estou imune. Depois o inverso. Atiçam-me-se estes pratos exóticos, como se eu tivesse “Esfomeado” escrito na testa. Até uma melhor amiga minha pensava que eu andava a subir as paredes. Isto até tinha piada, se não viesse da boca dela. O pior é que me arrancaram as papilas gustativas. Não me apetece comida exótica. E já não consigo confiar em ninguém. Gostava de culpar alguém, é mais fácil. Mas só me posso culpar a mim. Não vale a pena culpar uma memória. E já nem sei de quem estou a falar, para ser sincero. Lembro-me vagamente de pedaços dela. Tenho a impressão que tenho construído um puzzle perverso, juntando essas peças de recordação. Perverso? Nah. Magnífico. Porque o puzzle é perfeito. Todas as peças se encaixam na perfeição. Todas as noites, desmancho o puzzle e destruo as peças. Depois recrio-as à minha maneira. As peças são completamente distintas, mas o puzzle continua a estar completo. Não será isso o amor? Alguém que me diga. É que senão eu começo a jogar às damas e acabam-se estas merdas abstractas. O Picasso era um amador comparado com o coração partido. Não? Andei 4 meses a dormir tão pouco que já andava em transe diurno. Cansado é uma definição para fracos. Eu andava numa dimensão paralela, onde as autocarros eram berços de embalar e cada cadeira, por mais dura que fosse, era uma cama com um colchão Picolin. Na semana passada comecei a dormir melhor, assim, do nada. Agora perguntam vocês “Então Mauro, já andas melhorzinho então”. [eu espero que vocês perguntem]. Ao que eu respondo “Népias, comprei uma almofada mais alta.”.


