Tu

Não sei o que pense de ti. Sim, tu que passas na rua. Pensas que por olhares para baixo ninguém te vê? Vejo-te todos os dias, à mesma hora, com a mesma expressão. Não sei porque te escondes. Quase que te consigo ver suspirar. Tão pesados que são os teus olhos castanhos, e tão poucas vezes que os vejo a olhar em frente. Mas quem és tu, gaiata? Como te atreves a invadir os meus sonhos, se ainda nem sequer olhaste para mim? Dás-me raiva. Tu e os teus sapatos velhos enrugados, e as tuas saias de antes-de-ontem, que já ninguém usa. Tu e os teus cabelos negros, tão rebeldes e amarrados à força. Tu e as tuas cores, cinzentas e sujas, gastas pelo tempo. Tu e a tua pele morena... e as tuas mãos tão pequenas que levam esses livros horrorosos. De onde vieste? Para onde vais? Diz-me qualquer coisa, dá-me um sinal que estás viva e não te arrastas simplesmente para a forca. E hoje vieste com olhos em lágrimas. Não tens o direito. Mas quem és tu? Porque estás tão triste? Diz-me por favor... já não suporto ver-te assim. Olha para mim. Uma vez na vida, ergue-me esses poços de solidão sem fundo e procura-me. Estou aqui, tão perto... será que não me sentes? Porque eu só te sinto a ti. Junta só um pouco de força, e levanta-me esse queixo! Que raiva! E pronto, viras-me as costas. É o que mais vejo de ti. Devia ter-te dito qualquer coisa. Queria que parasses, me sentisses, e seguisses em frente. Prefiro ter-te assim, e ver-te como te tenho... amanhã à mesma hora.


