sexta-feira, maio 13, 2005

Parar de crescer

Lembro-me de tão pouco antes dos meus 16 anos. Aqueles anos gloriosos de escola onde me resumiram tantos dias de adolescência, cabem numa gaveta com as mesmas recordações de perseguições pela escola, porrada no autocarro, e dias a esconder 100 paus para poder comer qualquer coisa quando tivesse fome. Até ao dia que jurei que nunca mais iria ceder, e parei de ser perseguido. Olhava para mim mesmo no espelho, orgulhoso de finalmente me conseguir defender, mas ao mesmo tempo tão zangado por ter demorado tanto tempo. Furioso por não ter respondido, de não me ter erguido do chão e cuspido na cara de quem cercava cobardemente "Porque não cresci mais cedo?". Já perto da saída daquele monte olimpo, onde os deuses eram negros, e depois de algumas "namoradas", acabava o meu 12º ano. Não fazia a mínima ideia do que era o amor, por isso não tinha sofrido muito. Mas havia quem soubesse, e mo quisesse mostrar. Demorei tanto tempo a perceber... ela gostava de crianças, cuidava delas para quem não tinha tempo. É a primeira coisa que me vem à cabeça quando me lembro dela. Não era uma pessoa incandescente, pelo menos era isso que me diziam. Mas os dias passavam e aparecia cada vez mais linda aos meus olhos. Tudo nela me fazia sentido, me atraía. Mas a minha superficialidade acabava sempre por escolher outra pessoa. E então recusei a primeira pessoa de quem verdadeiramente gostei, e que gostou de mim. Mas eu era tão novo... ensinou-me que as mulheres eram mais do que maquilhagem e saias justas, mais do que uma cara bonita e cabelos reluzentes. Queria ter crescido um ano mais cedo porra. Mas não cresci. Aterro no canudo um ano mais tarde, já bastante longe da pessoa que fui. Os meus antigos amigos já nem me reconhecem. "Andaste a comer o quê rapaz?". E foi a última vez que os vi a todos, tão distintos que foram os nossos caminhos. Tinha começado uma vida nova, cheia de novidades. Pensava que tinha crescido para fora da minha superficialidade, quando a viúva amarela me apanhou. Não lhe podia chamar de negra, porque de escura e misteriosa não tinha nada. Encontrou-me, quando numa aula de economia descobrimos ter o mesmo passado de macaquices no trampolim. Ela namorava com um espadarte, uma relíquia de popularidade que mal metia os pés na escola. De tanto falarmos piscou-me o olho, em plena aula de análise matemática, ironia das ironias, às quais eu só ia para estar um pouco mais com ela. Parecia-me impossível. Uma das mulheres mais lindas que já tinha visto queria estar comigo. E assim caí de quatro, ansioso para ver onde me levava. Foi curto o caminho, vá se lá saber porquê. A ela chamavam-lhe de puta, por mim torciam-se cotovelos e sorrisos como uvas maduras no chão. Foram umas curtas 4 semanas que passaram tão depressa e com tanta intensidade, que podia ter sido um dia, uma tarde na praia. O que ela queria de mim, eu não estava disposto a dar, por isso não valia a pena, reza a estória. Pela primeira vez provei o sabor amargo da decepção, cujo travo ainda hoje sinto na boca, como se mo tivessem queimado à força para mais tarde recordar. "Pelo menos sei que estou vivo", pensava. Pudera, todo o meu corpo vibrava de cada vez que a via. De cada vez que lhe sentia o cheiro do cabelo. Mas onde estava o resto? Porque não senti por ela aquilo que me chegou tão tarde uns tempos antes? E foi assim que me curei. Upa, mais um pulo. Cresci, mas mais uma vez arrependido. Devia ter percebido à partida que nunca iria resultar. Foram passados alguns meses, frustrado por não conseguir ultrapassar de vez a minha superficialidade - só podia ser superficial, se não me atraiam mais do que caras lindas, certo? tão errado - por isso, vai de cair noutro buraco. Encontrei uma pessoa tão linda por dentro, que seria impossível não me apaixonar por ela. Comecei a namorar convencido que tinha feito a escolha certa. E ela era de facto linda. O seu carinho para com os outros, a sua honestidade, lealdade, e os seus princípios deixavam-me boquiaberto. Mas que estúpido meu deus! Então e tu Mauro?? Esqueceste-te de te apaixonar por ela foi??? Isso já não interessava. Ela era tudo o que um homem pode querer numa mulher. Amava a pessoa que ela era para o mundo, detestava a namorada que era para mim. E tratei-a tão mal, pobrezinha... não lhe admitia que não me quisesse, que não me desejasse. Acabei por lhe provar o quanto eramos diferentes. Não tive coragem para fazer o que ela acabou por fazer comigo, quebrando-me ainda assim em dois. Tinha-a perdido de vez. Sensação horrível, esta de se perder alguém com que se passa tanto tempo. É como se nos levassem metade de nós com a promessa de nunca mais a vermos. Custou-me tanto... foda-se que puta de dor. Desculpa-me C... sabes que te amarei para sempre, à nossa maneira. Nos entretantos da nossa longa estória, eu não tinha parado de sonhar com o que me faltava. Todas as noites imaginava-me a saltar de pedra em pedra, no escuro dos meus desejos mais íntimos, como símbolo da minha falta de pontaria. Faltava-me aquela pedra, onde eu pudesse aterrar os dois pés. Já tinha provado a atracção pura, e o amor interior, mas em pedras diferentes. Que merda esta, que falta de coordenação a minha... seria impossível? Teremos nós que nos agarrar a uma delas e construir a outra a partir daí? Tive a minha resposta rápido demais. Alguém me queria provar com uma pressa desgraçada que estava errado. E então na puta do charco que me rodeava, no meio da água estagnada e juncos apodrecidos, estava o meu próximo pulo. Upa, lá fui eu de novo. Mas era tão cedo... pensava que tinha crescido para fora da mim, e arrisquei tudo o que tinha. Pode-se dizer que nos atropelámos um ao outro. Passei-lhe a factura do que tinha sofrido com a C, e ela mostrou-me os recibos do seu ainda recente namoro. Discutimos como se nos conhecessemos há anos, como se soubéssemos exactamente o que fazer para não sermos magoados. Puta de psicologia, parámos de o fazer. A terra tremeu, mas já tinha parado. Foi então que a vi pela primeira vez. Olhavamo-nos como se nos conseguissemos ver por dentro, como nada que tinha vivido até então. E pela primeira vez na minha vida, apaixonei-me. Nunca na minha curta vida fui tão feliz! Como era possível meu deus, sentir tanta coisa ao mesmo tempo... era mais do que alguma vez tinha desejado. Chegava a casa e continuava a rir-me como se ainda estivesse com ela, incrédulo com o tempo que tinha perdido. Gritava a quem me quisesse ouvir que estava disposto a lutar por ela até ao fim, mesmo com a sua partida para o estrangeiro para estudar um semestre. Nada disso me metia medo... mas já ansiava pela sua volta mesmo antes de ter partido. Não tive coragem de lhe pedir para ficar, uma das poucas coisas que lhe fiz bem. E assim vi-a partir no avião, sabendo por dentro que a nossa estória estava perto do fim. Estava ciente, quando nos despedimos, de que poderia ser aquela a última vez que lhe tocava, a última vez que lhe beijava. E acabou mesmo por ser a nossa despedida. Gostava de a ter abraçado mais um pouco. Gostava de a ter confortado mais uns minutos, só mais um bocadinho. Assim, e sem mais nada para me goste de lembrar, fico com tudo o que me deu até sair a voar de ao pé de mim, enquanto tive perdidamente apaixonado. Parem-me de me pedir para a esquecer. Até morrer, vou lembrar-me de ti M. Vou saber que foi por ti por quem me apaixonei, e vou lembrar-me de todos as tuas pequenas coisas antes de fechar os olhos, e passar para o outro lado, convencido de que já tive tudo neste mundo. Por enquanto, vivo por cá. Que me perdoem aqueles que se tentam aproximar e não conseguem. Deixem-me pular até vocês, se for aí parar à vossa pedra. Eu não posso escolher quem amo.

2 rebites:

At 1:24 a.m., Blogger Rosa Cueca martelou o rebite...

Eu li as palavras e ia pensando várias coisas ao mesmo tempo.
Gostava de te oferecer as palavras que me ofereces, mas isto é teu. Isto és tu. (ou sou estúpida e não me apercebi que não é...ou simplesmente "gostava" que fosse pelos sentimentos que lá estão).
E como "és" tu...e é a "tua" história eu não quero falar sobre isso.
Só posso dizer que gostei muito, apesar de não ter rigorosamente nada a ver comigo ou com as minhas vivências :).

 
At 8:21 a.m., Blogger Mauro martelou o rebite...

Não era a minha intenção ter grande audiência quando fiz o blog... digamos que foi um irmão que tenho que me convenceu a escrever qualquer coisa. Às vezes precisamos de desabafar, só não sabemos como. Sou eu que estou aqui, um pouco despido, e talvez agora um pouco envergonhado (lol)... e não és nada estúpida. =)

 

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