Ela

Sento-me à beira da cadeira, nervoso. Tremo por todos os lados. Fico à espera dela. Ponho uma música clássica, para criar ambiente. Bach parece-me uma boa escolha, mas sou suspeito. Que alívio... a melodia escorrega-me pelos ouvidos... mas a escolha não me parece certa. Acho que ela não vai gostar. Hoje não. Levanto-me e procuro mais CD’s. Encontro Sigur e Calcanhoto... mas não a quero enjoar. Já as ouviu tantas vezes... o que será então? Hoje pode ser K’s Choice. Vivam os gostos do meu irmão, que de vez em quando até traz para casa coisas de jeito. Ponho o CD e sento-me de novo. Mas a cadeira parece que tem espinhos, porque não consigo parar quieto. Estou demasiado nervoso para ficar ali parado. Vou à cozinha, buscar qualquer coisa para comer. Não posso comer muito, senão arrisco-me a ficar com sono, e quero estar bem acordado quando ela chegar. Há tanto tempo que não a vejo... tenho saudades dela... mas desta vez fi-la prometer uma visita. Mas ela demora tanto... que tortura. Quantas vezes me terei imaginado a perder noites desperto na companhia dela... noites íntimas, especiais, únicas. Noites onde estaríamos os dois completamente separados do mundo. Nos meus sonhos, falávamos a noite toda. Bem... verdade seja dita, eu nem falava muito. Parecia-me um crime interromper a dança de palavras que entrava nos meus ouvidos. E ali ficava, de olhos a brilhar, enquanto me segredava coisas que ora me faziam rir, ou me deixavam cabisbaixo. Parecia conhecer-me há tanto tempo... serei merecedor da sua companhia? Já não sei... só sei que nunca mais chega, desgraçada. Grrrr, que faz de propósito! Sinto raiva, e ela sabe disso! Acalma-te rapaz... sabes que quanto mais nervoso estiveres, mais tempo ela vai demorar. Os segundos arrastam-se, os minutos alongam as pernas e as horas parecem coelhos na primavera. Tem calma... respira... o CD já deu a volta. Fico um pouco triste, confesso. Pensava melhor de ti. Prometeste-me porra. Porque não apareces? Penso demais. Penso demais em ti. Não me sai mais nada se não deixar de o fazer. Sento-me, inspiro fundo. A música parou, mas o CD está a tocar. Sinto-te. Sei que estás a chegar. Fecho os olhos e espero que me digas que chegaste. [silêncio...] Consigo ouvir... não sei se és tu, se a música que nos interrompe. Não... és mesmo tu. Que alívio, meu deus! Senti tanto a tua falta... estremeço, como um doido. Corre-me uma lágrima, mas não pela face. Arrepias-me todo, já te tinha dito? Parece que me invades o corpo, e deixas-me com frio, para me aqueceres logo de seguida. Tanta coisa que sinto ao mesmo tempo, só por ti. Só para ti. Dá-me um beijo, por favor. E não olhes para mim, que tenho vergonha de estar assim. Deixa-nos ficar assim a noite toda, bem perto um do outro. Antes que eu adormeça, e tu te vás, como antigamente. Quero ficar contigo até não poder mais. Até estar tão cansado que caia para o lado, exausto. Emprestas-me o teu corpo? Já sei, peço demais. Fica ao meu lado então. Abro os olhos, e ouço a música. Apetece-me escrever. Obrigado, inspiração. Sem ti, não sei o que seria de mim.


