Sigur Rós
Sempre fui um bom apreciador de música, verdade seja dita. Sou um confesso apaixonado pelas melodias e letras que me chamem a atenção à primeira. Normalmente, se não me cativa à primeira, dificilmente farei questão de voltar a ouvir. Mas a minha noção de música andava, até uns poucos anos atrás, um pouco turva. Claro que na altura não me apercebia, mas despachava os CD's com uma velocidade pouco aconselhável, sem os ouvir uma segunda ou terceira vez. Ouvia-se e passava-se à frente. Até que um dia...
... entrei numa Valentim de Carvalho, ainda nos tempos das 3 moscas. Estávamos todos por ali a passear, a conversar e à procura nem sei bem do quê. Estava algo [Svefn-g-Englar], a tocar. Algo que nunca tinha ouvido antes. A melodia soava-me tão bem... harmoniosa e arrepiante. Arrombava com pés de lã cada um dos meus sentidos, um após o outro, bem devagarinho. Enquanto me deixava seguir pela melodia, tudo abrandava à minha volta. Comecei a sorrir para mim mesmo. Alguém me puxara ao mundo real por breves instantes... "Mas nós mulheres, somos todas iguais, por isso não há problema, não achas?", perguntava-me. Não me lembro do resto da conversa... mas respondi, antes de me afastar de quem ansiosamente esperava por uma resposta "Se fossem todas iguais... já tinha desistido de procurar." E troquei-a. Pela música, pelo feitiço que já me havia envolvido e roubado aos meus amigos. Enquanto andava, tocava com a ponta dos dedos nas prateleiras cheias de músicas à espera de serem levadas para casa com alguém que lhes sentisse a falta, com a minha irritante mania de tocar em tudo. Tocava-lhes, mas agora de uma forma diferente. Ria-me, porque tinha arranjado uma banda sonora para os todos aqueles momentos em que me perdia no meio da multidão, e entrava num transe que me levava para outros lugares. Aproximei-me do balcão, e meti conversa com o senhor que lá estava. "Desculpe, mas o que está a tocar?"... "Sigur Rós."... "Desculpe?"... "Sigur Rós... uma nova banda por aqui em Portugal. Muito aclamada pela crítica... queres ver a capa?"... respondi que sim, e vejam o que me trouxe....

Perguntei quanto era, ao que me respondeu 15 euros. Tirei-os, sem hesitar, da minha carteira. Não queria saber se nunca tinha ouvido aquilo na minha vida, se só tinha uma música para enganar, ou se tinha dinheiro suficiente para dar para o resto do passeio. Tinha-me apaixonado à primeira vista. A lógica deixa de fazer sentido. O CD implorou-me que o levasse para casa, e eu fui incapaz de dizer que não. Levei-o, sem qualquer dúvida que tinha feito a escolha certa.
De tudo o que já ouvi na minha vida, o album Ágaetis Byrjun foi o que mais vezes deixei invadir a minha alma. Repetia-o ao infinito no meu quarto, na minha sala, enquanto dormia, enquanto me lembrava dele no autocarro. Tudo era uma desculpa para o ouvir. Estudar, ler um livro, uma viagem para a escola. Sonhava constantemente acordado, bêbado de provar over and over again todas aquelas músicas, das quais escolhi "viðrar vel til loftárása" como a que mais perto chegou de mim. Ainda hoje faço questão de procurar o CD e relembrar todas aquelas vezes em que me perdia pela melodias criadas pelos génios islandeses. Ainda hoje... quando toco ao de leve em tudo o que me rodeia, ouço as melodias a fluirem-me pela pontas dos dedos. Sigur Rós mudou a minha vida. Estou perdidamente apaixonado por tudo o que representa na minha vida, e como tal, não posso deixar de lhe deixar aqui, num espaço que afinal de contas é meu, o meu tributo.
Para alguém.


