O soldado chegara finalmente a casa. Depois de 5 anos a combater pelo seu país, estava finalmente à porta da sua aldeia, carregado com toda a tralha que lhe sobrara das suas desventuras pelo sul de África. Parecia-lhe impossível estar ali, onde tantas vezes se imaginara a chegar durante as noites passadas no inferno das selvas do Congo. O autocarro dera meia volta, pois era ironicamente aquele o seu último destino. Ficava ali portanto aquele vulto, sem coragem para dar os passos finais para reencontrar a vida que deixara para trás na terra onde havia nascido. Onde estaria ela? O que estaria a fazer naquele momento? Estaria sentada no alpendre numa cadeira, à espera do seu eterno amante? Que egoísta lhe pareceu ser, pensar na mulher que amava, naquele momento. Sim, que os seus pais também lhe sentiam a falta. Teriam porventura sofrido mais do que o próprio filho, mesmo sabendo que a dor que passara nas mãos dos rebeldes o iria deixado marcado para sempre. Mas só a ideia de a ver de novo... de lhe ver o olhar, de lhe sentir o abraço, de lhe amparar as lágrimas de saudade... nem mais um segundo sem a ver. Nem pensar. Quando deu por si, já estava a andar de novo. O seu corpo cansado sabia muito bem quem queria ver primeiro. Não precisou de pedir licença à consciência. Percorreu a rua principal. As casas estavam praticamente na mesma. A mercearia continuava a precisar de uma pintura urgente, o café já nem a velha placa com o seu nome tinha. Reconhecia algumas das pessoas, mas haviam por ali caras que via pela primeira vez. Sentiu-se observado. Não tinha avisado a família que ia chegar. De facto, desde que a sua unidade tinha caído nas mãos dos rebeldes, no ano anterior, não tinha entrado em contacto com ninguém. Senão tivesse fugido com alguns dos restantes prisioneiros, ainda hoje lá estaria, provavelmente no fundo de uma vala qualquer. Viu a loja da irmã, que estava aberta. Estava a morrer de saudades dela, mas não foi capaz de parar. Queria vê-la, agora. E fez um pequeno desvio para que não fosse visto. Mas sentiu que cada vez mais as pessoas paravam no meio da rua, reconhecendo-o. Nenhuma delas foi capaz de dizer alguma coisa. Pareciam ter visto um fantasma. E assim se arrastou lentamente pelas ruelas que tantas vezes havia percorrido durante a sua adolescência, de mão dada com a rapariga mais linda da aldeia. De olhos pregados no chão, soltava um riso de nostalgia cada vez que se sentia passar por um dos muitos cantos onde se escondiam, para ali ficarem horas sem conta, por vezes só para estarem juntos longe dos olhares coscuvilheiros das senhoras que ficavam à janela a tarde toda à espera que um porco passasse de bicicleta. Tantas foram as vezes que lhe secara as lágrimas depois das discussões com o bêbado que era o pai dela. Tantas foram as vezes que se deixara adormecer com a cabeça no colo dela, que lhe acariciava o cabelo de uma forma tão pacífica e ternurenta. Tantas as vezes que falavam das coisas mais estúpidas que podiam ser discutidas... o número de sapos no charco perto da aldeia, as cuecas rosa da padeira penduradas no estendal... tudo era um potencial alvo de uma extensa troca de argumentos. Tantas estaladas que havia levado, por gozar da roupa que ela vestia, que lhe fazia parecer uma boneca pintada. Ele insistia que ela viesse de calções e sapatilhas, porque de contrário não corria nada de jeito, e fazia-o perder tempo quando assaltavam as laranjeiras do terreno do Sr. Manel. Mas a mãe dela insistia em lhe vestir uma escolha de saias ridículas, mais que não fosse pela incompatibilidade das mesmas com os muros altos e com o chão sujo dos cantos que haviam reclamado para si mesmos. Quando vinha com a cara pintada então, era o cúmulo. Ele andava sempre com o mesmo trapo no bolso do casaco, que só usava para lhe limpar a cara quando a mãe dela a usava como boneca de testes para os seus cremes e tintas vindos do inferno. Dobrou a última esquina. Sabia que estava a uns meros 78 passos de adolescente da casa dela. Olhou em frente, e viu a roupa pendurada no quintal, como de costume. Recomeçou a andar, com o coração a bater-lhe tão rápido que lhe parecia querer rebentar com o peito, para chegar lá mais depressa. Fixou a entrada da casa e riu-se para si mesmo ao aperceber-se que ainda estava a contar que ela tivesse na cadeira debaixo do alpendre, a tricotar a maior camisola do planeta, de tanto tempo à espera do valente soldado, que fora combater os inimigos da pátria. Parou em frente do pequeno portão de madeira, paralisado com a ansiedade de a ver surgir a qualquer momento. A sua voz queria gritar o seu nome, mas enquanto tentava sequer abrir a boca, ouviu um riso na parte detrás da casa. Era ela. Quase que perdera o controlo de si mesmo, enquanto o som da sua voz de anjo lhe fazia tremer todos os centímetros do corpo, de tantas saudades de a ouvir. As lágrimas correram-lhe pelo rosto, enquanto tentava coordenar esforços para abrir aquele intransponível obstáculo que se tornara o vil portão da frente. Alcançou a ferrolho por dentro, abrindo finalmente a última porta que o separava dela. Entrou e dirigiu-se lentamente à parte de trás da casa, onde ainda ouvia os risos dela. Antes de dobrar o canto norte da casa, respirou fundo, limpou as lágrimas, e esgueirou lentamente o seu corpo para onde a pudesse ver.
E ali estava ela... o turbilhão de sentimentos que lhe varreu por completo a capacidade de pensar em condições fora tão intenso, que pensou ter cegado por alguns momentos. A alegria corria-lhe pelas veias como uma criança pelas divisões da casa para chegar à generosa árvore de Natal, e à promessa de milhares de prendas só para ele abrir. Mas ela não estava sozinha. Deitado na relva a alguns metros, encontrou o que ele imediatamente saberia ser o homem que mais iria odiar na vida dele. De olhos postos nela, enquanto dançava com uma das saias que tanto lhe pedira para não vestir, nenhum dos dois reparou que tinham companhia. O sorriso morreu-se-lhe da cara tão depressa como havia nascido, e por um momento pensou que ia perder os sentidos de tanta dor que estava a sentir naquele preciso instante. A forma como ela se ria para o homem deitado na relva era pior do que todas as torturas por que havia passado no meio das selvas africanas. Perdeu as forças, deixando cair o pesado saco que carregava ao ombro no chão, com algum estrondo. Ela parou. Olhou primeiro para o saco... e percorreu lentamente de baixo para cima o corpo do soldado que havia lutado tanto para esquecer. Todas as noites que havia chorado, trancada no quarto, a repetir a si mesma que ele teria morrido, passaram-lhe pelos olhos como se lhe tivessem comprimido a dor que lhe havia quase roubado o sopro da vida, por demasiadas vezes. Quando lhe reconheceu os olhos, ia jurar que o seu coração havia parado por breves instantes. Apercebeu-se que não estava a sonhar. Ele estava mesmo ali, depois de tantas vezes ter imaginado aquele momento. Depois de tantas vezes que se ensinara a esquecê-lo. Mas a vontade de lhe correr para os braços e lhe dar um milhão de beijos de saudade foi bruscamente interrompida pela realidade do presente. Olhou para o seu noivo, prostrado no chão, que olhava secamente para o que seria concerteza o soldado mais solitário do planeta. Soube de imediato que seria impossível existir pior dor no mundo do que aquela sobre o seu eterno amor de criança, que finalmente chegara a casa. Procurou-lhe de novo os olhos, mas encontrou apenas dois buracos negros sem qualquer expressão que lhes pudesse reconhecer. Já não lhe apetecia correr para os seus braços. Tinha medo. Começou a chorar, perdendo o pouco controlo que ainda detinha de si. Estendeu-lhe a mão, à medida que se aproximava lentamente do rapaz que sempre amara mais do que a própria vida. Ele recuou. Tanto que lhe queria dizer... mas as palavras atrapalhavam-se umas às outras antes de serem sequer proferidas. Abriu a boca mas nada mais do que a força invisível dos suspiros da alma se lhe escapava pela língua, enquanto se apercebia o quanto distante estava o seu amor. Quando lhe estendeu de novo o braço, em busca do conforto que tanto lhe fazia falta, ele recuou de novo. Aquela sensação horrível de falhar o que se tenta alcançar, como se a tivessem empurrado de um precipício e sentido as suas mãos a falhar por centímetros a última pedra a que se podia agarrar, deixou-a completamente de rastos.
As lágrimas correm-lhe pela face, enquanto tenta dizer o seu nome, pedindo-lhe que lhe deixe dar uma explicação... pelo menos que tente compreender. Ele levanta o braço, parecendo querer alcançar algo no bolso. "Diz qualquer coisa...", reunindo todas as suas forças. Ele tira a mão bolso, com algo dentro do seu punho cerrado. Olha para a mão durante alguns segundos. "Não chores mais, linda. Eu compreendo." Aproximou-se dela. "Sabes, não houve uma noite que não me imaginasse a voltar para ti. Quis viver só para te ver de novo." Ergueu a mão e fez-lhe uma carícia na face. Tocar-lhe valeu a pena ter sobrevivido. Ser-lhe tocada valeu a pena tê-lo amado tanto duranto tanto tempo. Abriu o punho que tinha cerrado, e com o velho lenço com que lhe costumava limpar a maquilhagem, secou-lhe as lágrimas, e limpou-lhe carinhosamente o rosto. Depois deu-lhe o lenço na mão, e recuou devagar enquanto as duas mãos ainda se tocavam, sabendo que se estavam a despedir de novo... agora para sempre.
"... um carril de cada vez."