O quadro
Fecho os olhos.
A força da minha imaginação dispara, qual pintor apaixonado.
Vai buscar os pincéis, as telas, e abre as persianas para deixar entrar o Sol.
As cores que lhe disponho não lhe chegam... quer mais. Agarra nas tintas e com um riso malicioso faz misturas que nunca sequer ouvi falar. Nunca vi tantos tons de vermelho.
Olha para tela, nua, como sempre esteve. Ali fica, petrificada, a ver o vazio. Espera pelo meu sinal. Estou cansado destas pinturas, mas não tenho remédio.
Cedo. As cores que lhe dei e que não dei passam-lhe para a ponta do pincel, que parece querer tomar conta do quadro. Vejo-lhe um sorriso, cínico. Alimenta-se de mim, tenho a certeza.
Atira-se à tela, mais vulnerável que nunca. Na ponta do pincel, as tintas que lhe emprestei estão irreconhecíveis. Vejo traços que me fazem lembrar algo, e sei bem o quê. Mas de longe, a pintura que lentamente emerge da loucura da pintora não me faz sentido.
Estou hipnotizado. Gosto da pintura assim. Quanto mais pinta, mais me atrai. Traço sim, traço não, perco o sorriso. Mas isso já não me interessa. O que interessa é o que ela me pinta. E tantos foram os quadros que me oferece, dia após dia. E ainda nem sei o que irá sair deste.
Pede-me mais um pouco, enquanto o acaba. Pede-me paciência, mas sabe que me custa. Precisa que me custe. Mostra-me o quadro, turvo como as águas de um lago... quando pensamos que lhe conseguimos ver o fundo, ainda agora começámos a olhar.
Desta vez, foi um circo romano. Um público enfurecido. Gladiadores que entram na arena. O cheiro do suor, o calor das vozes, o pó que cobre tudo. A pintora olha para mim, chama-me a atenção. "Estou a perder-te. Cada vez acreditas menos em mim. Tentei pintar-te mais um quadro, mas não me deixaste. Este foste tu. Agarraste-me na mão que segurava o pincel. Não te apercebeste? Estou a enfraquecer. Já não to consigo esconder mais. Olha para a tela que me roubaste, e deixa-me para amanhã."
Olho para o quadro, que vive e respira como se estivesse vivo. A multidão, sou eu. Os gladiadores, as minhas recordações. Os mais fortes, são os que ganham sempre. São aqueles que a história guarda nos livros, feito após feito. Os mais fracos, de quem ninguém se gosta de lembrar, não parecem ter grandes hipóteses. Mas desta vez, consigo ver. Os mais fracos estão lá, no meio da arena. Vivos e a implorar-me que os veja. Que antes que morram mais uma vez na eterna batalha da minha mente perversa, me lembre de cada um deles. Para que quando amanhã a minha imaginação voltar, consiga olhar o quadro todo, ao invés de uma fantasia que só eu consigo desenhar.
Abro os olhos. Penso que desta vez levei a melhor. Remendo-me, à minha forma. Apaixonado, que remédio... mas com os pés na terra.


