:º)
O nó que me amarrava ao passado desapareceu... esperei tanto por este dia que agora que me cai nos braços, sabe-me a cartão. É um doer diferente, mas dói na mesma. Dói porque a vida nos puxa para a frente, e não me deixa olhar para trás. É impressionante a mente humana. Por um lado, detesta estar na dúvida. Parece que nos rasgam por dentro não saber o que vai acontecer amanhã. Não saber se vamos estar nos braços de quem amamos, ou se vai ser o mesmo que hoje. Se vai ser o mesmo desenrolar lento de minutos que nos abocanha a vontade de viver. Mas pelo menos, é uma dúvida. Já não temos idade para não sabermos o que é uma probabilidade, não é? Quando estamos apaixonados, a mais pequena possibilidade de saírmos a cavalo em direcção ao pôr-do-sol com o nosso amor, mantém-nos apaixonados. Em bicos de pés, qual criança à janela à espera que os pais voltem do trabalho. Depois o dia passa, e ficamos magoados. Despejamos a nossa frustração nos outros, e pintamos o mundo de cinzento. Abrimos o coração a estranhos, na esperança que nos compreendam. Numa corrida desenfreada à manifestação da dor, como se acreditássemos que mais ninguém está a sofrer como nós. A nossa dor é sempre pior. E sanguessugas que somos, alimentamo-nos do sangue dos outros, porque a tristeza precisa de companhia. E gostamos de atenção, não é? Gostamos que pelo menos alguém esteja lá para ouvir todas aquelas coisas que gostaríamos que a nossa paixão ouvisse, porventura noutras circunstâncias. E deixamos-lhes migalhas no chão para que um dia acabem por ler todas aquelas sintonias orquestradas, e que por ordem do diabo, nos sintam na mesma. Pode ser que nos reconheçam nas palavras. Pode ser que nos sintam a falta. Pode ser que descubram todos aqueles pormenores e sentimentos, que por falta de coordenação, o coração não nos deixa partilhar com as pessoas que mais amamos no momento certo. A vida é feita de momentos, ouvi cantar. E que verdade acabou por ser. Por me doer. Agora, desatam-me o nó. Acabaram-se as dúvidas, as noites em que reciclava a minha esperança por um dia diferente. Um dia melhor. Um dia perto da pessoa que mais amamos. Acabaram-se todas aquelas dádivas aos céus, às estrelas e aos deuses pagãos, quando oferecia tudo o que tinha e não tinha só para a poder beijar mais uma vez. Acabaram-se os sonhos pelo dia adentro, as prequelas das noites que inevitalmente vinham logo a seguir. Acabaram-se as justificações para as lágrimas, que se me escorriam pela face quando os ninguéns se distraiam, e me deixavam um segundo em paz. Estou livre. É isto que me grita a consciência. E de que me serve a liberdade, se me deixa oco? Se me deixa à deriva no mar, sem rumo nem destino? Passei tempo demais drogado com o amor. Viciado com o calor da paixão que me corria pelas veias. Não estou habituado a isto. Gostava de poder acordar amanhã outra vez na dúvida. Se sofria, se me doía, valia a pena. Havia uma razão. A melhor razão do mundo. Estava perdidamente apaixonado... Preparo-me para dar o próximo salto. A próxima pedra está a minha espera. Posso olhar só uma vez para trás?... Adeus, inspiração. Amo-te muito.
Upa, lá vou eu.


