Estarei velho?
Sonho com isto regularmente. Acordado então já lhe perdi a conta. Chamar-lhe-ia uma crise de um quarto de idade, se não reconhecesse que na maior parte dos casos, na minha idade sonha-se com outras coisas. Mas não posso fazer nada não é? Há uns dias atrás fui fazer umas compras, aqui ao pé de casa. Enquanto estou à espera no Multibanco, uma miúda com não mais de 5 anos anda por ali às voltas a correr em redor dos expositores, a perseguir porventura todos aqueles amigos imaginários que nos brotam da mente quando não temos mais nada com que nos preocupar. Ria e saltava, caia no chão quando calculava mal o próximo passo... sempre com aquela inocência que tão bem caracteriza uma criança. O pai, ali bem perto a trocar umas palavras com um amigo que provavelmente já seria de longa data, pela forma que trocaram um abraço, começava a ficar visilemente irritado por cada vez que a sua filha dava uma volta ao expositor e lhe tocava de leve nas calças, como se que dizendo "Estou aqui pai, não te esqueças de mim!". Distraí-me. A fila andou e a senhora atrás de mim perdeu a paciência e disse-me "Jovem, olhe a sua vez!". Odeio ser interrompido, mas a senhora até tinha razão. Avancei para o MB mas fiz questão de continuar a observar o bailado da miúda, que arrastava a atenção das pessoas para as intermináveis voltas que dava ao expositor, como se fizesse uma maratona e fosse em primeiro lugar. "Pára Catarina!", grita a besta do pântano. Param-se os risos, a correria, e o tempo volta ao seu ritmo normal. A miúda encosta-se às cadeiras que estavam expostas, envergonhada. Olha de cabeça baixa para o pai, visilvemente assustada. O pai retoma a conversa, e vêem-se abanares de cabeça em uníssono por ter interrompido de forma tão brusca uma brincadeira tão inofensiva. Apaga-se-me o sorriso na cara, e só me apetece espetar-lhe com uma cadeira nos cornos. A miúda estava agora de joelhos no chão, com a cabeça repousada em cima dos braços cruzados em cima da cadeira. Saí do MB, mas pus-me a ver uma montra antes de entrar no supermercado. Olhei para ela de novo, havia-se levantado de novo. Com os braços a balançar de um lado para o outro, parecia ter arranjado um plano completamente novo, pois estava estava agora ao pé de umas flores que estavam ali a enfeitar o expositor. A senhora responsável aproximou-se da miúda, e disse-lhe qualquer coisa que obviamente não consegui ouvir de onde estava. É então a miúda leva a mão a uma das flores, e parece perguntar à senhora se pode ficar com ela. A senhora ri-se, e com algum cuidado, retira uma das flores do vaso e oferece-la à criança, que esboça um sorriso do tamanho do mundo e ainda faz uma pequena vénia de agradecimento, como se a tivesse decorado num filme de Hollywood vezes sem conta. Pega na flor, e dirige-se devagarinho em volta do expositor, passando por mim com a flor atrás das costas, como se conseguisse esconder efectivamente uma flor daquele tamanho com as suas costas tão pequenas. Chega-se ao pé do pai, que ainda se encontrava em plena conversa com o seu amigalhaço. Puxa-lhe o casaco, para lhe chamar a atenção. Só à terceira tentativa o pai finalmente se vira "O que é Catarina, não vês que o papá está a falar com alguém??!", gritando do alto da sua estupidez. A miúda retrai-se, com medo do que toda a gente sabe, mas não quer pensar. Estende o braço ao pai com a flor na não, e diz-lhe "Para ti papá...". Estava à espera, mas não deixo de ficar surpreendido... e o pai, o que faz? Pega na flor, atira-a para cima de uma das mesas, e retoma a conversa com o seu amigo, tal não era o interesse. Brutal? É porque não viram a cara da miúda quando viu o que o pai fez. Raios me partam se vou ser assim. É com isto que sonho, por vezes mais vezes do que gostaria. Ser um pai que ao menos saiba aceitar a flor. Chamam-me de cota... acho que sim... não me importo. =)


