quarta-feira, julho 20, 2005

O quadro

Fecho os olhos.

A força da minha imaginação dispara, qual pintor apaixonado.

Vai buscar os pincéis, as telas, e abre as persianas para deixar entrar o Sol.

As cores que lhe disponho não lhe chegam... quer mais. Agarra nas tintas e com um riso malicioso faz misturas que nunca sequer ouvi falar. Nunca vi tantos tons de vermelho.

Olha para tela, nua, como sempre esteve. Ali fica, petrificada, a ver o vazio. Espera pelo meu sinal. Estou cansado destas pinturas, mas não tenho remédio.

Cedo. As cores que lhe dei e que não dei passam-lhe para a ponta do pincel, que parece querer tomar conta do quadro. Vejo-lhe um sorriso, cínico. Alimenta-se de mim, tenho a certeza.

Atira-se à tela, mais vulnerável que nunca. Na ponta do pincel, as tintas que lhe emprestei estão irreconhecíveis. Vejo traços que me fazem lembrar algo, e sei bem o quê. Mas de longe, a pintura que lentamente emerge da loucura da pintora não me faz sentido.

Estou hipnotizado. Gosto da pintura assim. Quanto mais pinta, mais me atrai. Traço sim, traço não, perco o sorriso. Mas isso já não me interessa. O que interessa é o que ela me pinta. E tantos foram os quadros que me oferece, dia após dia. E ainda nem sei o que irá sair deste.

Pede-me mais um pouco, enquanto o acaba. Pede-me paciência, mas sabe que me custa. Precisa que me custe. Mostra-me o quadro, turvo como as águas de um lago... quando pensamos que lhe conseguimos ver o fundo, ainda agora começámos a olhar.

Desta vez, foi um circo romano. Um público enfurecido. Gladiadores que entram na arena. O cheiro do suor, o calor das vozes, o pó que cobre tudo. A pintora olha para mim, chama-me a atenção. "Estou a perder-te. Cada vez acreditas menos em mim. Tentei pintar-te mais um quadro, mas não me deixaste. Este foste tu. Agarraste-me na mão que segurava o pincel. Não te apercebeste? Estou a enfraquecer. Já não to consigo esconder mais. Olha para a tela que me roubaste, e deixa-me para amanhã."

Olho para o quadro, que vive e respira como se estivesse vivo. A multidão, sou eu. Os gladiadores, as minhas recordações. Os mais fortes, são os que ganham sempre. São aqueles que a história guarda nos livros, feito após feito. Os mais fracos, de quem ninguém se gosta de lembrar, não parecem ter grandes hipóteses. Mas desta vez, consigo ver. Os mais fracos estão lá, no meio da arena. Vivos e a implorar-me que os veja. Que antes que morram mais uma vez na eterna batalha da minha mente perversa, me lembre de cada um deles. Para que quando amanhã a minha imaginação voltar, consiga olhar o quadro todo, ao invés de uma fantasia que só eu consigo desenhar.

Abro os olhos. Penso que desta vez levei a melhor. Remendo-me, à minha forma. Apaixonado, que remédio... mas com os pés na terra.

domingo, julho 17, 2005

Estarei velho?

Sonho com isto regularmente. Acordado então já lhe perdi a conta. Chamar-lhe-ia uma crise de um quarto de idade, se não reconhecesse que na maior parte dos casos, na minha idade sonha-se com outras coisas. Mas não posso fazer nada não é? Há uns dias atrás fui fazer umas compras, aqui ao pé de casa. Enquanto estou à espera no Multibanco, uma miúda com não mais de 5 anos anda por ali às voltas a correr em redor dos expositores, a perseguir porventura todos aqueles amigos imaginários que nos brotam da mente quando não temos mais nada com que nos preocupar. Ria e saltava, caia no chão quando calculava mal o próximo passo... sempre com aquela inocência que tão bem caracteriza uma criança. O pai, ali bem perto a trocar umas palavras com um amigo que provavelmente já seria de longa data, pela forma que trocaram um abraço, começava a ficar visilemente irritado por cada vez que a sua filha dava uma volta ao expositor e lhe tocava de leve nas calças, como se que dizendo "Estou aqui pai, não te esqueças de mim!". Distraí-me. A fila andou e a senhora atrás de mim perdeu a paciência e disse-me "Jovem, olhe a sua vez!". Odeio ser interrompido, mas a senhora até tinha razão. Avancei para o MB mas fiz questão de continuar a observar o bailado da miúda, que arrastava a atenção das pessoas para as intermináveis voltas que dava ao expositor, como se fizesse uma maratona e fosse em primeiro lugar. "Pára Catarina!", grita a besta do pântano. Param-se os risos, a correria, e o tempo volta ao seu ritmo normal. A miúda encosta-se às cadeiras que estavam expostas, envergonhada. Olha de cabeça baixa para o pai, visilvemente assustada. O pai retoma a conversa, e vêem-se abanares de cabeça em uníssono por ter interrompido de forma tão brusca uma brincadeira tão inofensiva. Apaga-se-me o sorriso na cara, e só me apetece espetar-lhe com uma cadeira nos cornos. A miúda estava agora de joelhos no chão, com a cabeça repousada em cima dos braços cruzados em cima da cadeira. Saí do MB, mas pus-me a ver uma montra antes de entrar no supermercado. Olhei para ela de novo, havia-se levantado de novo. Com os braços a balançar de um lado para o outro, parecia ter arranjado um plano completamente novo, pois estava estava agora ao pé de umas flores que estavam ali a enfeitar o expositor. A senhora responsável aproximou-se da miúda, e disse-lhe qualquer coisa que obviamente não consegui ouvir de onde estava. É então a miúda leva a mão a uma das flores, e parece perguntar à senhora se pode ficar com ela. A senhora ri-se, e com algum cuidado, retira uma das flores do vaso e oferece-la à criança, que esboça um sorriso do tamanho do mundo e ainda faz uma pequena vénia de agradecimento, como se a tivesse decorado num filme de Hollywood vezes sem conta. Pega na flor, e dirige-se devagarinho em volta do expositor, passando por mim com a flor atrás das costas, como se conseguisse esconder efectivamente uma flor daquele tamanho com as suas costas tão pequenas. Chega-se ao pé do pai, que ainda se encontrava em plena conversa com o seu amigalhaço. Puxa-lhe o casaco, para lhe chamar a atenção. Só à terceira tentativa o pai finalmente se vira "O que é Catarina, não vês que o papá está a falar com alguém??!", gritando do alto da sua estupidez. A miúda retrai-se, com medo do que toda a gente sabe, mas não quer pensar. Estende o braço ao pai com a flor na não, e diz-lhe "Para ti papá...". Estava à espera, mas não deixo de ficar surpreendido... e o pai, o que faz? Pega na flor, atira-a para cima de uma das mesas, e retoma a conversa com o seu amigo, tal não era o interesse. Brutal? É porque não viram a cara da miúda quando viu o que o pai fez. Raios me partam se vou ser assim. É com isto que sonho, por vezes mais vezes do que gostaria. Ser um pai que ao menos saiba aceitar a flor. Chamam-me de cota... acho que sim... não me importo. =)

sábado, julho 16, 2005

Too much weight

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OK, this is my party and i'll cry if i want to. Sorry for the song abuse, i just love music.


"Still a little bit of your taste in my mouth
Still a little bit of you laced with my doubt
Still a little hard to say what's going on

Still a little bit of your ghost your witness
Still a little bit of your face I haven't kissed
You step a little closer each day
Still I can't say what's going on

Stones taught me to fly
Love taught me to lie
Life taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannonball

Still a little bit of your song in my ear
Still a little bit of your words I long to hear
You step a little closer to me
So close that I can't see what's going on

Stones taught me to fly
Love taught me to lie
Life taught me to die
So it's not hard to fall
When you float like a cannon

Stones taught me to fly
Love taught me to cry
So come on courage!
Teach me to be shy
'Cause it's not hard to fall
And I don't want to scare her
It's not hard to fall
And I don't wanna lose
It's not hard to grow
When you know that you just don't know"

Cannonball, Damien Rice

Esta é uma dedicatória a todos aqueles aqueles que aprenderam hard and strong just what it is to know about sweet and sour.

Sabem que mais? Por mais que sofra com isso, tenho de admitir que não estar apaixonado por alguém deixa-me manter a paixão por todas aquelas mulheres com quem cruzo um olhar, um toque ocasional ou um sorriso de timidez. Vocês são o nosso combustível, senhoras. Sem vocês, não haveria razão para sonhar...

quarta-feira, julho 13, 2005

Daughters

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Não consigo sequer por em palavras tudo o que me vem à cabeça quando ouço esta música, de tanto que tem para nos dizer. Às vezes as coisas mais simples são as que mais precisamos de ouvir...


"I know a girl
She puts the color inside of my world
and she's just like a maze
Where all of the walls all continually change

And I've done all I can
To stand on the steps with my heart in my hand
Now I'm starting to see
Maybe it's got nothing to do with me

Fathers be good to your daughters
Daughters will love like you do
Girls become lovers who turn into mothers
So mothers be good to your daughters, too

Ooh, you see that skin
It's the same she's been standing in
Since the day she saw him walking away
Now she's left cleaning up the mess he made

So fathers be good to your daughters
Daughters will love like you do
Girls become lovers who turn into mothers
So mothers be good to your daughters, too

Boys you can break
You find out how much they can take
Boys will be strong and boys soldier on
But boys would be gone without warmth from a woman's good, good heart

On behalf of every man, looking out for every girl
You are the god and the weight of her world

So fathers be good to your daughters
Daughters will love like you do
Girls become lovers who turn into mothers
So mothers be good to your daughters, too"

Daughters, John Mayer


... apesar de ser uma das músicas que mais passa na rádio daquelas de sua autoria, não queria deixar de lhe prestar homenagem, não só por esta música em particular - que aliás é uma dedicatória muito especial à mulher - mas sim por todo o seu trabalho, pelo qual tenho vindo a ganhar uma grande admiração. Heads up, para quem ainda não o conhecia assim tão bem.

Tenho escrito cada vez menos para o blog, já agora... suponho que seja uma fase... estou à espera que o meu corpo me diga o que se passa.

segunda-feira, julho 04, 2005

:º)

O nó que me amarrava ao passado desapareceu... esperei tanto por este dia que agora que me cai nos braços, sabe-me a cartão. É um doer diferente, mas dói na mesma. Dói porque a vida nos puxa para a frente, e não me deixa olhar para trás. É impressionante a mente humana. Por um lado, detesta estar na dúvida. Parece que nos rasgam por dentro não saber o que vai acontecer amanhã. Não saber se vamos estar nos braços de quem amamos, ou se vai ser o mesmo que hoje. Se vai ser o mesmo desenrolar lento de minutos que nos abocanha a vontade de viver. Mas pelo menos, é uma dúvida. Já não temos idade para não sabermos o que é uma probabilidade, não é? Quando estamos apaixonados, a mais pequena possibilidade de saírmos a cavalo em direcção ao pôr-do-sol com o nosso amor, mantém-nos apaixonados. Em bicos de pés, qual criança à janela à espera que os pais voltem do trabalho. Depois o dia passa, e ficamos magoados. Despejamos a nossa frustração nos outros, e pintamos o mundo de cinzento. Abrimos o coração a estranhos, na esperança que nos compreendam. Numa corrida desenfreada à manifestação da dor, como se acreditássemos que mais ninguém está a sofrer como nós. A nossa dor é sempre pior. E sanguessugas que somos, alimentamo-nos do sangue dos outros, porque a tristeza precisa de companhia. E gostamos de atenção, não é? Gostamos que pelo menos alguém esteja lá para ouvir todas aquelas coisas que gostaríamos que a nossa paixão ouvisse, porventura noutras circunstâncias. E deixamos-lhes migalhas no chão para que um dia acabem por ler todas aquelas sintonias orquestradas, e que por ordem do diabo, nos sintam na mesma. Pode ser que nos reconheçam nas palavras. Pode ser que nos sintam a falta. Pode ser que descubram todos aqueles pormenores e sentimentos, que por falta de coordenação, o coração não nos deixa partilhar com as pessoas que mais amamos no momento certo. A vida é feita de momentos, ouvi cantar. E que verdade acabou por ser. Por me doer. Agora, desatam-me o nó. Acabaram-se as dúvidas, as noites em que reciclava a minha esperança por um dia diferente. Um dia melhor. Um dia perto da pessoa que mais amamos. Acabaram-se todas aquelas dádivas aos céus, às estrelas e aos deuses pagãos, quando oferecia tudo o que tinha e não tinha só para a poder beijar mais uma vez. Acabaram-se os sonhos pelo dia adentro, as prequelas das noites que inevitalmente vinham logo a seguir. Acabaram-se as justificações para as lágrimas, que se me escorriam pela face quando os ninguéns se distraiam, e me deixavam um segundo em paz. Estou livre. É isto que me grita a consciência. E de que me serve a liberdade, se me deixa oco? Se me deixa à deriva no mar, sem rumo nem destino? Passei tempo demais drogado com o amor. Viciado com o calor da paixão que me corria pelas veias. Não estou habituado a isto. Gostava de poder acordar amanhã outra vez na dúvida. Se sofria, se me doía, valia a pena. Havia uma razão. A melhor razão do mundo. Estava perdidamente apaixonado... Preparo-me para dar o próximo salto. A próxima pedra está a minha espera. Posso olhar só uma vez para trás?... Adeus, inspiração. Amo-te muito.

Upa, lá vou eu.

sexta-feira, julho 01, 2005

Telepatia

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Meu bem, você me dá água na boca
Vestindo fantasias, tirando a roupa
Molhada de suor
De tanto a gente se beijar
De tanto imaginar loucuras

(...)

A gente faz amor por telepatia
No chão, no mar, na lua, na melodia
Mania de você
De tanto a gente se beijar
De tanto imaginar loucuras
Nada melhor do que não fazer nada
Só pra deitar e rolar com você

Rita Lee, Mania de Você