quinta-feira, janeiro 05, 2006

Estação terminal

Todas as linhas chegam um dia ao fim.



Escrevi, com mais ou menos paixão, com mais ou menos fulgor. Para o melhor, e para o pior.



Descarrilei, em certos momentos. Extraviado, magoei quem me via passar. Deixei-me conduzir pelos meus sentimentos. Chegou a altura de retomar o controlo da minha vida. Ainda assim, a sensação de perceber que consegui tocar alguém com as minhas palavras, é indescritível.



"Estação terminal. Há correspondência com a linha seguinte. Pede-se aos senhores passageiros que saiam do comboio."

sexta-feira, dezembro 30, 2005

2005

"2005"

Já vais?? Bebe mais um copo!!

- Check-list de coisas à puto:
o Conduzir grandes carrões. DONE
o Estacionar grandes carrões. DONE
o Ver jogos do Benfica à borla. DONE
o Fazer figura de parvo perante milhares de pessoas. DONE.
o Trabalhar com bué de putos. DONE
o Salvar uma vida "à bombeiro". DONE

- Check-list de coisas à macho:
o Abusar das curvas e rotundas do país. DONE
o Atingir um novo record pessoal de velocidade. DONE
o Ir à praia à noite e fazer disso um hábito (no Verão). DONE
o Patrulhar o mato em busca de estradas perdidas e abandonadas. DONE
o Experimentar as famigeradas lianas. DONE
o Experimentar coisas novas e calar-me a mim mesmo. DONE
o Voltar a trabalhar à noite. DONE
o Jogar mais à bola. REDONDAMENTE FALHADO.
o Pregar um bico no primeiro cão que me tentasse morder. MAIS OU MENOS.
o Saltar de pára-quedas. AINDA NÃO FOI DESTA.


- Check-list de coisas à marmelo
o Magoar alguém repetidas vezes. DONE
o Discutir com quem mais se gosta. DONE
o Arriscar a vida desnecessariamente. DONE
o Complicar o que já é complicado. DONE
o Complicar o que é simples. DONE
o Jogar à bola lesionado, três vezes consecutivas. DONE
o Atiçar um cão só para ver se ele corria mais depressa. DONE

- Check-list de coisas à homem:
o Apaixonar-me. DONE
o Acabar o curso. DONE
o Ter algum sítio para escrever. DONE
o Ter alguém para escrever. DONE
o Ter alguém para ler. DONE
o Começar a ler mais. DONE
o Ir à praia todos os fins-de-semana. DONE
o Viajar. SOON
o Passar mais tempo com os meus amigos e com a família. WORK IN PROGRESS.

- Check-list de coisas para amanhã:
o Acordar.

Obrigado ter feito parte do meu ano, e essas tretas todas ;)

domingo, dezembro 04, 2005

Roses are red
Violets are blue
What was it you said,
That made me love you?....

... I guess you never did found that comb of yours. I would gladly wait for it my whole life.

But now it's enough.

Fácil

- Sinto-me com sorte.
- Então porquê?
- Hoje de manhã olharam para mim no metro.
- Tás parvo ou o quê?
- A sério.
- Toda a gente olha para alguém, pensas que és especial, queres ver?
- Foi diferente.
- Era um gajo?
- Não sejas estúpido.
- Não me surpreendia nada.
- Tinha uns olhos incríveis.
- Lá vamos nós...
- E o cabelo...
- bla bla bla
- E depois tenho a certeza que se sentiu incomodada comigo.
- Contigo especado a olhar para ela...
- Juro que quase nem olhei.
- A sério?...
- Olhava de vez em quando, confesso.
- Assustaste a pobre rapariga.
- De pobre não tinha nada.
- Era rica? Eh lá!
- ... às vezes penso como somos amigos.
- Olha o senhor inocente, a dar o sermão ao padre. A mim não me enganas!
- Eras capaz de andar com uma rapariga só porque ela era rica?
- Nem pestanejava. Queres ver que tu recusavas?
- Não andava com ela pelo dinheiro.
- Pfft. Vai lá ver se eu estou ali à frente.
- E o cheiro... meu deus, o perfume!
- Pierre Cardun?
- Nem com 100 anos mandas uma pra caixa.
- A minha mulher usa um perfume da Palmolive. Baratucho e chega muito bem.
- Pera lá. Palmolive?
- Sim?
- Não me digas que forças a tua mulher a usar o teu after-shave...
- Não é lá muito esperta, coitadinha... nisso tens razão.
- Eu??
- Então mas e a cheirosa, conta mais!
- Passou a viagem toda do metro a olhar para mim...
- E tu sabes isso como?...
- Porque passei a viagem toda a olhar para ela.
- Nesta altura tá ela a contar às amigas todas que um pervertido qualquer se fez ao bife no metro.
- Ela não era assim.
- OK. Isto eu tenho de ouvir melhor!
- Dá para ver logo como as pessoas são.
- Queres dizer então que só com um olhar ficaste logo a saber tudo sobre essa gaja?
- Olha o respeito...
- Mas taste a passar??
- A maneira como ela olhou para mim... disse tudo.
- És mesmo um granda tanso.
- Deu para ver que já sofreu muito, já passou por coisas que a magoaram e a fizeram mudar.
- Se ainda não tivesse sofrido, dava-lhe uns 15 anos.
- Mas que bela merda de lógica!
- Que belo toni que tu me saíste! Então a chavala tinha o quê, a nossa idade aposto, e com um olhar tiraste logo essas conclusões todas! Não és normal.
- Deu para sentir o clima.
- Xii, tou fora.
- Senti vibrações positivas por todo o lado. Era como se nos empurrassem um para o outro.
- Andaste foi a beber logo de manhã, e o que andava no ar era o cheiro a álcool.
- Seja lá o que for que tu fumas nas pausas para o café, aconselho-te a parares.
- Então não é, pá?? Vês uma gaja no metro, e durante aqueles longos 3 minutos que levas de viagem, quase que te casavas com ela ao primeiro olhar! Acorda pra vida!
- Partilhar merdas contigo é a mesma coisa que falar com o meu cão. Ele também não percebe nada do que lhe digo, mas ao menos abana a cauda.
- Então explica-me lá melhor, vá...
- Tentei meter conversa com ela, mas não consegui.
- Man, tiveste 3 minutos. Se nesse tempo de troca de olhares, ainda te sobrasse algum tempo para te apresentares, havia um record do guiness à tua espera.
- Então dei-lhe um cartão meu.
- Nice move, casanova. Muito subtil, não haja dúvida.
- Escrevi nas costas que apanhava aquele metro todos os dias à mesma hora.
- Ui. Tou mesmo a ver o filme todo.
- O que foi?
- Amanhã quando chegares ao trabalho vais aparecer com a maior tromba de sempre, porque a gaja não apareceu.
- Duvido que ela não apareça.
- Here we go again...
- Da forma como ela olhou para mim...
- ...
- É a mulher da minha vida! Eu sei disso!
- Bebe mas é a porra do café antes que o boss apareça.
- Vais ver amanhã.
- Vou vou.

(no dia seguinte)

- Então pá! Conta coisas!
- Epa, sinto-me com sorte.
- Então?
- Hoje olharam para mim no metro.
- Fodasse....

sexta-feira, novembro 04, 2005

Rapsódia no comboio das tantas

Deixei-me dormir ainda há pouco tempo no caminho de volta de um lado qualquer, enquanto olhava pela janela fora do comboio. Num momento estava a ver prédios a passar, no outro estava na terra dos que se deixam dormir em todo o lado. O mais engraçado, não foi ter adormecido, mas sim ter acordado com os olhos de uma mulher descaradamente nos meus. Ainda tentou disfarçar, mas um pequeno fenómeno natural que eu gosto de chamar de pigmentação da pele em massa (corar), só piorou a situação. Olhou atrapalhadamente para a janela, mas sem qualquer sucesso, porque estava escuro lá fora e esbarrou (agora com a minha preciosa ajuda) de novo com os meus olhos, agora pelo reflexo do vidro. Ora, por esta altura, e como eu não acho piada nenhuma a estas coisas, já eu estava a fazer um esforço sobre-humano para não lançar uma gargalhada, e por um momento ainda pensei ter a situação controlada. Mas eis que a pobre criatura me consegue surpreender de novo, e qual camaleão num quadro daquele fulano que tanto gostam de chamar Picasso, muda novamente de cor, revira os olhos para o único lado onde eu não estava, e dá-me um pontapé em cheio na canela. Um homem já não é de ferro, e muito menos contra uma biqueira de um sapato que só não cai na definição de arma branca por escassos milímetros. Contorci-me com dores, mas macho que é macho não grita, o que encavacou ainda mais a artista à minha frente, que bem tentou pedir desculpa, mas a boca abria... e não saia nada. Esfreguei a perna até parar de me doer, e ainda tive para pedir explicações à senhora, mas ela já estava tão atrapalhada que decidi dizer "Não faz mal, a sério." Ela o que faz? Diz qualquer coisa numa língua que ainda hoje está para ser descoberta, levanta-se de repente, e com uma pirueta digna de uma artista do cabaret, estatela-se no chão, depois de ter tropeçado (juro que não fiz absolutamente nada) no meu pé. Ainda fica um pouco no chão, a pensar na vida (como diria um romano do filme do Astérix, depois de levar uma lambada e de aterrar uns bons metros à frente), até que eu lhe pegasse na mão, lhe pedisse desculpa pelo que tinha acontecido, e a ajudasse a levantar. Não passou sem uns arranhõezitos, mas podia ter sido francamente pior. Quando eu pensava que já tinha visto todos os tons de vermelho a lidar com o Paintshop e afins, eis que a cara da senhora me consegue surpreender de novo. Soltei uma gargalhada ínfima (daquelas que cerramos os dentes e torcemos os lábios para que não se ouça), ao que ela me respondeu: "Olhe, para a próxima não se deixe dormir no comboio, tá bem?". Impávido e sereno, calmo e controlado, e a fazer força para não me mijar nas calças de tanto que me apetecia rir, disse: "Está prometido!". Sacudiu o vestido, deu meia volta, chicoteou o cabelo para trás e zarpou a velocidade de cruzeiro dali para fora. As pessoas que estavam ao pé de nós, que como é óbvio e natural, não prestam atenção a estas coisa, ficaram ainda por cima a olhar para mim como se eu tivesse sodomizado a pobre mulher. Ainda me deu vontade de explicar o que tinha acontecido, mas as cabeças a abanar em reprovação eram tantas, que até dava para sentir uma brisa. Sentei-me, ciente que a partir daquele momento iria ser recordado de uma forma especial pelas pessoas que ali estavam. Ainda pensei em deixar-me dormir de novo, mas o sono já lá ia. Um aviso, como moral... um olhar pode matar.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Take your time

Esperar, para me apaixonar, é a mesma coisa do que tomar um duche. Ligo a água, espero que fique a ferver. Tomo banho com a água morna, ou até mesmo fria, mas é bom saber que posso ter água quente.

domingo, outubro 16, 2005

I just wrote this...

... to say i'm sorry...

jen

quarta-feira, setembro 14, 2005

Tropeçar para começar

Estórias como o "Despertar da mente" desafiam a mentalidade comum. Quem o viu, de certeza que não saiu incólume. Ou então nunca lhe doeu nada. Quem quiser que escolha uma hipótese. Eu fico como estou. Cada vez que o revejo, vejo-o de uma perspectiva diferente. Segundo aquela estória, as pessoas não podem lutar contra o destino. Encontrar e gostar de alguém não dependem apenas e só de uma série de solavancos que nos conduzem a algum lado. Encontrar alguém que nos toque é muito mais do que isso. Se eu acreditasse que as pessoas tinham direito a vidas diferentes ao longo do tempo, diria que andamos perdidos neste universo, vida após vida, à procura de algo que nos defina. Às vezes é algo que temos de fazer. Às vezes é alguém que temos de conhecer. Como a vida não é perfeita, encontramos a mesma pessoa vezes sem conta, sem grandes resultados. Provavelmente não lhe achamos graça à primeira, mas houve algo que nos levou a olhar. Na próxima vez, passa-nos à frente, e nem reparamos nela. Até que depois de uma série de tentativas do Cupido, ou seja lá quem for que mande nestes momentos, retribui-se um olhar. Um toque sem querer. A 23 vidas desse momento, já se trocam palavras e conversas casuais. Mas falta alguma coisa. Falta o timing. De repente, a pessoa já está casada. Noutra mais à frente, vai para o longe no dia seguinte. Noutra ainda mais à frente, somos nós que estamos casados. E assim nascemos, respiramos, e tentamos só mais uma vez. É sempre só mais uma vez. Cansados e magoados, e sem sabermos muito bem como, um dia alguém tropeça em nós... e ali ficamos, pasmados. Reparámos um no outro, ao mesmo tempo. Queremos trocar um pedido de desculpa, mas não é preciso. Não faz sentido dizer alguma coisa, se a mente nos prega partidas e nos coloca aos dois noutros tempos, noutras alturas. Uma palavra depois, e as peças começam a encaixar. Fazemos um esforço incrível para nos lembrarmos de onde conhecemos aquela pessoa, mas é impossível. Não é a Joana, nem o Manuel. Não é a miúda de saia longa, nem o rapaz de calças brancas. Parece-nos alguém de quem gostámos, mas ninguém que tenhamos amado era minimamente parecido. A Antónia tinha uma cara redonda e vestia calças, e o Jeordázio era forte e bastante mais alto. Procuramos incessantemente uma desculpa para o que aconteceu, mas alguém está obviamente a gozar conosco. Não nos deixa lembrar, que cinismo! Faz malabarismo com as nossas memórias, atirando-as para cima para nunca mais as vermos de novo. Brinca com os nossos sentidos, sem a nossa autorização. Coramos sem razão nenhuma, ou por todas as razões possíveis. Provoca-nos com o cheiro do cabelo, que ironicamente só não cheira melhor porque não sabemos de que fruta terá vindo. Pêssego? Ou será Mel e Leite? E como é que eu de repente sei que existem champôs de Mel e Leite? E o pior ainda nem chegou. Às tantas estamos a rir de conversas e piadas sem sabermos muito bem como. Às tantas estamos surdos, e só lhe vemos as curvas dos lábios, as covinhas da face, e os tons de vermelho e bêge que lhe definem a pele, e ainda assim arranca-se-nos um sorriso como se nos tivessem dado a melhor notícia do mundo. E se fizermos figura de parvos, porque a conversa até nem era para rir, não há problema. Ao que parece o nosso sorriso também lhe chega, e quando damos por isso estamos a rir-nos os dois à gargalhada porque uma ponte caiu no Pombal e só por sorte não morreu ninguém. E depois andamos com um bloco de notas, guardado onde ninguém vê. Até dizia I-Pod, mas não sou capitalista. Tudo o que acontece entre nós é religiosamente guardado em algum lado, quais formigas que trabalham no Verão para não morrerem de fome no Inverno. Isto tudo, e ainda nem sequer nos levantámos do chão, depois de termos tropeçado um no outro. Provavelmente fizemos uma figurão enquanto ali estávamos, estendidos no chão... quando na verdade a eternidade entre o vazio de há bocado e o fulgor do presente foram apenas alguns segundos. Levantamo-nos, aparvalhados. Ouvimos alguém a rir, mas não vemos bem quem. Desistimos de nos tentar lembrar quem é aquela pessoa, porque já nos dói a cabeça. Levanta-se o queixo, ergue-se o coração, e damos as mãos. E como alguns de nós não acreditamos na reincarnação, no zarolho do Cupido e das vezes que isto já esteve para acontecer, inventamos uma desculpa esfarrapada. Sejam as vidas que já vivemos, a força do destino... ou simplesmente porque nos deixamos sonhar com alguém tantas vezes que às tantas já não sabemos se estamos a sonhar em voz alta.

Não tenho mais nada para apontar, neste momento. Obrigado quem me leu até ao fim. Vou ter saudades vossas.