Rapsódia no comboio das tantas
Deixei-me dormir ainda há pouco tempo no caminho de volta de um lado qualquer, enquanto olhava pela janela fora do comboio. Num momento estava a ver prédios a passar, no outro estava na terra dos que se deixam dormir em todo o lado. O mais engraçado, não foi ter adormecido, mas sim ter acordado com os olhos de uma mulher descaradamente nos meus. Ainda tentou disfarçar, mas um pequeno fenómeno natural que eu gosto de chamar de pigmentação da pele em massa (corar), só piorou a situação. Olhou atrapalhadamente para a janela, mas sem qualquer sucesso, porque estava escuro lá fora e esbarrou (agora com a minha preciosa ajuda) de novo com os meus olhos, agora pelo reflexo do vidro. Ora, por esta altura, e como eu não acho piada nenhuma a estas coisas, já eu estava a fazer um esforço sobre-humano para não lançar uma gargalhada, e por um momento ainda pensei ter a situação controlada. Mas eis que a pobre criatura me consegue surpreender de novo, e qual camaleão num quadro daquele fulano que tanto gostam de chamar Picasso, muda novamente de cor, revira os olhos para o único lado onde eu não estava, e dá-me um pontapé em cheio na canela. Um homem já não é de ferro, e muito menos contra uma biqueira de um sapato que só não cai na definição de arma branca por escassos milímetros. Contorci-me com dores, mas macho que é macho não grita, o que encavacou ainda mais a artista à minha frente, que bem tentou pedir desculpa, mas a boca abria... e não saia nada. Esfreguei a perna até parar de me doer, e ainda tive para pedir explicações à senhora, mas ela já estava tão atrapalhada que decidi dizer "Não faz mal, a sério." Ela o que faz? Diz qualquer coisa numa língua que ainda hoje está para ser descoberta, levanta-se de repente, e com uma pirueta digna de uma artista do cabaret, estatela-se no chão, depois de ter tropeçado (juro que não fiz absolutamente nada) no meu pé. Ainda fica um pouco no chão, a pensar na vida (como diria um romano do filme do Astérix, depois de levar uma lambada e de aterrar uns bons metros à frente), até que eu lhe pegasse na mão, lhe pedisse desculpa pelo que tinha acontecido, e a ajudasse a levantar. Não passou sem uns arranhõezitos, mas podia ter sido francamente pior. Quando eu pensava que já tinha visto todos os tons de vermelho a lidar com o Paintshop e afins, eis que a cara da senhora me consegue surpreender de novo. Soltei uma gargalhada ínfima (daquelas que cerramos os dentes e torcemos os lábios para que não se ouça), ao que ela me respondeu: "Olhe, para a próxima não se deixe dormir no comboio, tá bem?". Impávido e sereno, calmo e controlado, e a fazer força para não me mijar nas calças de tanto que me apetecia rir, disse: "Está prometido!". Sacudiu o vestido, deu meia volta, chicoteou o cabelo para trás e zarpou a velocidade de cruzeiro dali para fora. As pessoas que estavam ao pé de nós, que como é óbvio e natural, não prestam atenção a estas coisa, ficaram ainda por cima a olhar para mim como se eu tivesse sodomizado a pobre mulher. Ainda me deu vontade de explicar o que tinha acontecido, mas as cabeças a abanar em reprovação eram tantas, que até dava para sentir uma brisa. Sentei-me, ciente que a partir daquele momento iria ser recordado de uma forma especial pelas pessoas que ali estavam. Ainda pensei em deixar-me dormir de novo, mas o sono já lá ia. Um aviso, como moral... um olhar pode matar.
