quarta-feira, setembro 14, 2005

Tropeçar para começar

Estórias como o "Despertar da mente" desafiam a mentalidade comum. Quem o viu, de certeza que não saiu incólume. Ou então nunca lhe doeu nada. Quem quiser que escolha uma hipótese. Eu fico como estou. Cada vez que o revejo, vejo-o de uma perspectiva diferente. Segundo aquela estória, as pessoas não podem lutar contra o destino. Encontrar e gostar de alguém não dependem apenas e só de uma série de solavancos que nos conduzem a algum lado. Encontrar alguém que nos toque é muito mais do que isso. Se eu acreditasse que as pessoas tinham direito a vidas diferentes ao longo do tempo, diria que andamos perdidos neste universo, vida após vida, à procura de algo que nos defina. Às vezes é algo que temos de fazer. Às vezes é alguém que temos de conhecer. Como a vida não é perfeita, encontramos a mesma pessoa vezes sem conta, sem grandes resultados. Provavelmente não lhe achamos graça à primeira, mas houve algo que nos levou a olhar. Na próxima vez, passa-nos à frente, e nem reparamos nela. Até que depois de uma série de tentativas do Cupido, ou seja lá quem for que mande nestes momentos, retribui-se um olhar. Um toque sem querer. A 23 vidas desse momento, já se trocam palavras e conversas casuais. Mas falta alguma coisa. Falta o timing. De repente, a pessoa já está casada. Noutra mais à frente, vai para o longe no dia seguinte. Noutra ainda mais à frente, somos nós que estamos casados. E assim nascemos, respiramos, e tentamos só mais uma vez. É sempre só mais uma vez. Cansados e magoados, e sem sabermos muito bem como, um dia alguém tropeça em nós... e ali ficamos, pasmados. Reparámos um no outro, ao mesmo tempo. Queremos trocar um pedido de desculpa, mas não é preciso. Não faz sentido dizer alguma coisa, se a mente nos prega partidas e nos coloca aos dois noutros tempos, noutras alturas. Uma palavra depois, e as peças começam a encaixar. Fazemos um esforço incrível para nos lembrarmos de onde conhecemos aquela pessoa, mas é impossível. Não é a Joana, nem o Manuel. Não é a miúda de saia longa, nem o rapaz de calças brancas. Parece-nos alguém de quem gostámos, mas ninguém que tenhamos amado era minimamente parecido. A Antónia tinha uma cara redonda e vestia calças, e o Jeordázio era forte e bastante mais alto. Procuramos incessantemente uma desculpa para o que aconteceu, mas alguém está obviamente a gozar conosco. Não nos deixa lembrar, que cinismo! Faz malabarismo com as nossas memórias, atirando-as para cima para nunca mais as vermos de novo. Brinca com os nossos sentidos, sem a nossa autorização. Coramos sem razão nenhuma, ou por todas as razões possíveis. Provoca-nos com o cheiro do cabelo, que ironicamente só não cheira melhor porque não sabemos de que fruta terá vindo. Pêssego? Ou será Mel e Leite? E como é que eu de repente sei que existem champôs de Mel e Leite? E o pior ainda nem chegou. Às tantas estamos a rir de conversas e piadas sem sabermos muito bem como. Às tantas estamos surdos, e só lhe vemos as curvas dos lábios, as covinhas da face, e os tons de vermelho e bêge que lhe definem a pele, e ainda assim arranca-se-nos um sorriso como se nos tivessem dado a melhor notícia do mundo. E se fizermos figura de parvos, porque a conversa até nem era para rir, não há problema. Ao que parece o nosso sorriso também lhe chega, e quando damos por isso estamos a rir-nos os dois à gargalhada porque uma ponte caiu no Pombal e só por sorte não morreu ninguém. E depois andamos com um bloco de notas, guardado onde ninguém vê. Até dizia I-Pod, mas não sou capitalista. Tudo o que acontece entre nós é religiosamente guardado em algum lado, quais formigas que trabalham no Verão para não morrerem de fome no Inverno. Isto tudo, e ainda nem sequer nos levantámos do chão, depois de termos tropeçado um no outro. Provavelmente fizemos uma figurão enquanto ali estávamos, estendidos no chão... quando na verdade a eternidade entre o vazio de há bocado e o fulgor do presente foram apenas alguns segundos. Levantamo-nos, aparvalhados. Ouvimos alguém a rir, mas não vemos bem quem. Desistimos de nos tentar lembrar quem é aquela pessoa, porque já nos dói a cabeça. Levanta-se o queixo, ergue-se o coração, e damos as mãos. E como alguns de nós não acreditamos na reincarnação, no zarolho do Cupido e das vezes que isto já esteve para acontecer, inventamos uma desculpa esfarrapada. Sejam as vidas que já vivemos, a força do destino... ou simplesmente porque nos deixamos sonhar com alguém tantas vezes que às tantas já não sabemos se estamos a sonhar em voz alta.

Não tenho mais nada para apontar, neste momento. Obrigado quem me leu até ao fim. Vou ter saudades vossas.